Síndrome de Usher e os relacionamentos - Escola e Trabalho

 

 

PARTE 5

RELACIONAMENTO NA ESCOLA E NO TRABALHO

 

Os relacionamentos com a família, amigos, colegas de escola e de trabalho, vizinhos, etc., são de grande importância para vivermos em sociedade.

 

Apesar do ser humano ser sociável, a convivência não é tão simples: as pessoas são diferentes, pensam e comportam-se de forma distinta. 

 

Nesta publicação vou destacar o relacionamento do usheriano* no ambiente escolar e no ambiente do trabalho. Vamos lá?

 

 

Ambiente Escolar

 

A família é a primeira e a mais importante instituição para educar, orientar e guiar de forma mais amorosa e responsável aos seus filhos. Em termos gerais, é a "estrutura" principal para o desenvolvimento na vida da criança.

 

A escola vem em seguida como um complemento, um aspecto significativo para a criança para alcançar a formação e o crescimento como pessoa. E isto se diz também ao usheriano em ambiente escolar: o(a) aluno(a) independentemente da sua idade ou do seu grau de formação, desenvolve sua capacidade e habilidade de aprender.

 

Pelos relatos de meus amigos usherianos, muitos não sabiam que tinham a Usher quando estavam na idade escolar. A maioria quando criança, apenas apresentava "surdez" (de perda leve a moderada) e estudava em escolas normais, que foi o meu caso. Já os que tiveram perda auditiva profunda, muitos foram encaminhados para entidades especiais para surdos. Em alguns casos, há usherianos que fizeram o implante coclear e conseguiram prosseguir os estudos normalmente.

 

Então, pela variedade de escolas, podemos observar se ajudou (ou não) a moldar a identidade como surdo, deficiente visual ou simplesmente como "usheriano". A maioria "não sabia da Usher" e portanto, suas experiências como "surdo" foi mais destacada do que como aluno com problemas visuais.

 

O maior desafio enfrentado pelos usherianos foi garantir que suas necessidades em relação à sua perda auditiva e gradativamente a sua visão, fossem atendidas pelos educadores, o que nem sempre foi possível. Por exemplo: mais iluminação, mais recursos em som (microfones), entre outros. Neste ponto, as escolas precisam se adaptar para que os estudantes possam usufruir melhor as aulas.

 

A convivência e a comunicação foram fundamentais para que o relacionamento entre professores e alunos fluísse de maneira positiva. É claro que muitas vezes, isto não aconteceu, sobretudo por causa da desinformação dos professores em relação aos alunos com deficiências. Muitos relataram também que no ensino superior, as dificuldades eram maiores, pois nem todas as instituições eram adaptadas por falta de recursos.

 

Por fim, muitos usherianos citaram sobre bullying específico por causa de deficiências auditivas e visuais. A maioria relatou que grande parte do desrespeito vinha de colegas, e também, infelizmente, de alguns professores, independentemente do grau de formação.

 

 

Ambiente do Trabalho

 

O trabalho é uma forma digna de viver, um meio em que as pessoas exercem suas atividades e ganham sua remuneração. Trabalhar é fundamental para o ser humano, tenha ele deficiência ou não, e isto envolve competência, crescimento e experiência de vida. 

 

Dos usherianos que tenho contato, a maioria faz parte da Lei de Cota para as pessoas com deficiências (Lei 8213/1991), ela obriga as empresas com mais de 100 funcionários, a ter em seu quadro de 2% a 5% de reabilitados ou com deficiência. Segundo as autoridades governamentais essa exigência surgiu como forma de inclusão, para que todos possam trabalhar com igualdade. Infelizmente, a maioria dos empregadores contratam apenas como um mero cumprimento da Lei de Cotas: um assunto que não vou prolongar por ser muito complexo, mas futuramente pretendo abordar em outras publicações. 

 

Então, muitos de nós usherianos, preenchemos a vaga de PCDs como "surdos" ou preferimos contar que temos "apenas" deficiência auditiva... muito raro preencher vaga como "usheriano": uma forma de receio de não conseguir emprego e evitar mal-entendidos.

 

A falta de acessibilidade na maioria das empresas, como por exemplo sala mais iluminadas, locais com menos barulho, horários de entrada e saída  foram um dos motivos de afastamento do empregado usheriano. Alguns funcionários precisaram tirar licença médica devido às restrições visuais que dificultavam a exercer certas funções. Muitas vezes, a pessoa que tem Usher precisa analisar seu cargo, um fator importante que pode determinar seu futuro como profissional.

 

Mesmo com as limitações visuais e auditivas, isto não impede de termos boa convivência com colegas e chefes de trabalho desde que possamos aprender um com outro. O relacionamento saudável com todos é fundamental, mas acredito que esta é a parte mais complicada no trabalho: os colegas são pessoas que não escolhemos para sermos amigos, mas é a empresa quem contrata usando critérios como experiência profissional... Então é preciso ter um consenso de manter a harmonia, porque, afinal de contas, é um local onde passamos maior parte de nosso tempo.

 

Apesar de não ser regra, alguns termos como “deficiente”, “aleijado”, “inválido”, “incapaz”, etc., podem ser considerados pejorativos. Para um bom relacionamento corporativo, seria importante reforçar aos colaboradores que evitassem o uso de tais tratamentos. As pessoas com a Usher preferem ser tratados como empregados capazes e membros da equipe.

 

 

Concluindo...

 

Quando criança, mesmo sendo surda, estudei em escolas normais e não usava aparelhos auditivos. Poderia dizer que tive muitas dificuldades para escutar e em acompanhar as aulas, mas eu sou grata em ter tido excelentes professores nos primeiros anos escolares.

 

Minhas dificuldades aumentaram na adolescência. Comecei a ter cegueira noturna, mas eu não sabia da retinose pigmentar, então várias vezes, me achavam "distraída" por não enxergar direito à noite, esbarrar nas pessoas... eram situações que eu sempre me perguntava "se tinha algo errado comigo". Só pude constatar a minha Síndrome de Usher quando eu estava na faculdade. Graças ao estágio, pude entender e trilhar um novo caminho pela frente como usheriana.

 

Ao saber da Usher, eu também tive que me adaptar às mudanças no trabalho, como por exemplo, entrar e sair mais cedo para evitar andar à noite. Trabalhei também como cotista, uma experiência que me ensinou  a lidar e a conviver com pessoas que compreendiam, outras nem tanto...

 

O ambiente do trabalho me ajudou a ter mais afinidade com colegas e é claro que nem sempre foi "um mar de rosas". No meu caso, a maioria não sabia da minha Usher e muito menos da minha surdez: meus cabelos cobriam os aparelhos auditivos e eu escutava bem. Quanto aos meus problemas visuais, apenas os colegas mais próximos e alguns chefes sabiam da minha restrição visual. A superproteção ou a indiferença foram algumas das dificuldades que enfrentei nas empresas, mas procurei superar, e enfim segui adiante até me aposentar, não por invalidez, mas por tempo de contribuição.

 

Eu acredito que confiança e respeito são chaves para ter um bom e saudável relacionamento com colegas e superiores, seja em escolas ou no trabalho. Mesmo sendo usheriana, aprendi com as experiências de que nem sempre houve "inclusão" e "acessibilidade"  como precisava, mas a vida me ensinou a superar os desafios do dia a dia.

 

*Nota: A palavra "usheriano" surgiu em grupos que participo em redes sociais para designar de forma mais humana e carinhosa as pessoas com Síndrome de Usher.

 

Revisão: Telma Nunes de Luna