ENTREVISTAS

05/06/2018

Giovana Pilla

Giovana Pilla, 48 anos, a atleta gaúcha de Canoas, de renome internacional no judô, conta nesta entrevista seus desafios, suas barreiras e mesmo com Síndrome de Usher, conquistou centenas de medalhas. Leia mais sobre essa prestigiosa atleta!

1) Giovana como foi que descobriram sua surdez? Conte para nós.

Eu sempre fui surda... Os meus pais descobriram a minha surdez quando eu tinha 4 anos de idade e com o tempo, também perceberam o meu problema da visão. Eu uso aparelhos auditivos há 40 anos. Sou surda oralizada, mas eu falo, canto e grito quando vou na luta das competição... rs

 

2) Mesmo sendo surda oralizada, você usa LIBRAS?

LIBRAS só uso com meus amigos.

 

3) Conte para nós como surgiram seus problemas visuais.

Sempre usei óculos: tenho miopia de 2 graus. Eu pensava que a miopia era como se fosse a retinose... não tinha noção. Quando tinha 27 anos, a minha visão piorou por causa da retinose pigmentar e foi aí que depois de ler livros e consultar com oftalmo soube da retinose... Depois de alguns anos apareceu a catarata nos dois olhos. Fiz a cirurgia e foi muito bom! Ficou mais nítido. Agora quanto a retinose pigmentar continua piorando cada vez mais... Não enxergo de noite e em locais escuros... Só enxergo em locais iluminados.

 

4) Giovana como você soube que você tinha Síndrome de Usher?

Na verdade, eu não sabia de nada na época... Os meus pais não me falaram nada e eu só queria trocar os óculos, então eu pensava que tinha apenas miopia...rs Só fui saber mesmo quando adulta. Descobri ao ler livros de biologia. Depois procurei confirmar com meus pais e médicos.

 

5) E quando você vai no oftalmo e otorrino você fala que tem a Síndrome de Usher?

Sim, sempre falo. O retinólogo já sabe e consulto com ele há 30 anos. Com o otorrino, sempre falo.

 

6) Giovana você já fez testes genéticos para saber da Síndrome de Usher?

Ainda não.

 

7) Você usa bengala?

Uso bengala vermelha e branca que simboliza a surdocegueira. Foi a Fernanda Falkoski que me falou que devia trocar a bengala branca que eu usava por essa de 2 cores.

 

8) Você usa a sua bengala direto?

Só na rua.

 

9) Giovana, como você foi na escola? Você teve muitas dificuldades?

Estudei em duas escolas especiais para surdos quando era criança. E também estudei em escola normal. Troquei de escolas porque não conseguia acompanhar e prestar atenção nas aulas. Na verdade, foi muito difícil para mim e para os professores também... rs Apesar das dificuldades consegui me formar como Técnica em Edificações.

 

10) Você exerceu a profissão como técnica em edificações?

Sim, trabalhei 2 anos junto com arquitetos e engenheiros civis e também trabalhei em casa, como autônoma. Quando começou os meus problemas da retinose, eu tive que parar. Hoje eu trabalho como massoterapeuta.

 

11) Quando foi que você começou a praticar esportes?

Bom... na escola, eu, mesmo com dificuldades em escutar e enxergar tinha que fazer aula de educação física. A professora me pediu para tirar óculos para não bater no rosto e assim percebi que é possível praticar esporte mesmo sendo pessoa com deficiência. Eu pensava que isto atrapalhava muito. Depois disto, lembro quando eu tinha 9 anos de idade, comecei praticar judô na Petrobrás em Canoas com o instrutor Enor Moreira. O ano encerrou e ele não voltou mais. Foi aí que comecei a ter gosto pelos esportes, principalmente judô. O meu segundo treinador de Judô é Flávio Luiz Pereira, foi ele que me ensinou muito no judô na escola normal.

 

12) Então até hoje você luta judô?

Sim, judô profissional. Luto com pessoas videntes, Paralímpica e Surdolimpica.

 

13) Conta pra nós sua trajetória no judô. Você participou de vários campeonatos, não é?

Sou atleta de judô surdocega mais graduada no mundo. Sou faixa preta 5° dans em Canoas e segunda no Estado. Na verdade, sou a única atleta surdocega no mundo, apesar de ter um atleta surdocego francês, mas ele não compete muito. Tenho cerca de 300 medalhas. Coleciono muitas vitórias inesquecíveis: sou Hexa Campeã Grand Prix para Cegos, BI Campeã PARAPAN México e EUA, Campeã US OPEN EUA, 3° Lugar Mundial IBSA em Turquia, 4° lugar na Surdolimpiadas Turquia 2017... entre outros.

 

14) Então você participa de campeonatos com videntes? Você não tem dificuldades?

Sim, participo. Nas competições, a luta é igual para todos, seja para vidente ou não.

 

15) Você também pratica outra modalidade esportiva? Quais?

Eu luto só no judô, mas há pouco tempo estou praticando Jiu Jitsu.

 

16) Você continua competindo?

Sim... e vou competir até o fim!

 

17) Quando você luta judô, você tira os aparelhos auditivos ou não?

Sim.... sempre! Deve tirar.

 

18) O que você faz para facilitar o seu dia a dia sendo uma pessoa com Síndrome de Usher?

Eu peço ajuda quando tenho dificuldade para ler. Para escrever, eu uso caneta grossa de cor preta. Uso a bengala para caminhar na rua e para não esbarrar nas pessoas: isto a bengala ajuda muito! Nas competições, sempre tenho quem me ajuda, porque me conhecem e sabem que tenho Síndrome de Usher.

 

19) O que você acha que precisa melhorar em relação as pessoas com deficiência no Brasil?

Precisava melhorar na acessibilidade no trabalho, na escola, na segurança... Precisava respeitar mais as leis direcionadas para pessoas com deficiências. Precisava investir mais nos esportes.

 

20) E na acessibilidade da pessoa com deficiência nos esportes o que precisava melhorar?

Precisava ter mais segurança, ter acompanhamento durante as viagens, ter mais acessibilidade nos vestuários, nos banheiros, nos estádios... e também maior divulgação sobre a inclusão da pessoa com deficiência nos esportes.

 

21) Giovana, que conselho você daria para uma pessoa que acabou de saber que tem a Síndrome de Usher?

O importante é ficar bem e sorrir. Não tenha medo, siga o seu caminho! Se puder, pratique esportes. Faça o que você gosta! Eu por exemplo, amo o que eu faço! Seja feliz!

Vejas fotos com Giovana Pilla em diversos Campeonatos

Jogos Parapan-Americanos de Guadalajara, México - 2012

Crédito foto: ACERGS

Jogos Parapan-Americanos de Guadalajara, México - 2012

Crédito foto: CBJ BRASIL

Grand Prix para cegos - 2014

Crédito foto: FGJ

Grand Prix Internacional INFRAERO de Judô Para Cegos - 2017

Crédito foto: CBDV

Vídeo: Giovana Pilla, Judoca com Surdocegueira

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Responsável: Ana Lúcia Perfoncio